top of page

O uso equivocado da palavra Ecossistema

  • Foto do escritor: Ciclo Empreendedor Universitário
    Ciclo Empreendedor Universitário
  • há 2 dias
  • 3 min de leitura

Imagem: unsplash
Imagem: unsplash

Ecossistema não é vitrine. Nem palco. Muito menos propriedade de alguém.


O termo “ecossistema” virou uma das palavras mais repetidas quando o assunto é inovação. Hoje, praticamente qualquer grupo, comunidade, hub, parque tecnológico, programa de aceleração ou rede institucional quer se autointitular “o ecossistema”. Mas aqui existe um erro conceitual importante.


Ecossistema, em seu significado real, é muito maior do que qualquer grupo organizado.


Na biologia, ecossistema é a interação dinâmica entre organismos vivos e o ambiente em que vivem: relações complexas, interdependentes, descentralizadas e, muitas vezes, invisíveis a olho nu. Não existe um único protagonista. O funcionamento depende tanto do que aparece quanto do que ninguém vê.


Na inovação, deveria ser igual.


Um ecossistema de inovação não é formado apenas por startups, universidades, investidores e grandes empresas, embora esses sejam atores importantes. Ele também inclui pequenas empresas tradicionais, negócios familiares, prestadores de serviço, indústria, comércio local, setor público, terceiro setor, produtores rurais, comunidades periféricas, favelas, clientes, fornecedores, profissionais independentes...


Muita coisa relevante sequer aparece nos eventos, nos painéis ou nos relatórios institucionais e ainda assim, movimenta o ecossistema.


Segundo a OECD (The Organisation for Economic Co-operation and Development | OECD), inovação não se limita à criação de tecnologia de ponta; ela envolve implementação de novos ou significativamente melhores produtos, processos, métodos organizacionais ou modelos de negócio. Isso significa que inovação não nasce apenas em laboratórios, hubs ou startups. Ela também nasce no chão da fábrica, no comércio de bairro, no agronegócio, na indústria tradicional, na comunidade indígena, nas favelas, na operação diária de empresas que resolvem problemas reais...


Dados da ABStartups (Mapeamento - Abstartups) mostram que o universo de startups brasileiras mapeadas representa apenas uma fração do ambiente econômico brasileiro.


Quando comparado ao total de mais de 20 milhões de negócios ativos no Brasil, segundo IBGE e Sebrae, fica evidente que startups representam apenas uma pequena fração do ecossistema econômico e de inovação do país. Ou seja: reduzir inovação ao universo startup é reduzir drasticamente a complexidade do próprio ecossistema.


O problema começa quando determinadas instituições tentam centralizar narrativas e vender a ideia de que representam o ecossistema inteiro. Não representam!

Representam uma parte.

Um recorte.

Um grupo.

Uma frente.

E isso não é demérito, desde que exista clareza conceitual.


Chamar uma rede específica de “o ecossistema” cria uma falsa percepção de totalidade. E pior: pode gerar monopólio narrativo, concentração de visibilidade e exclusão silenciosa de atores que também geram impacto, mas não orbitam determinados círculos institucionais.

Enquanto alguns disputam protagonismo, a inovação real continua acontecendo em lugares que raramente ganham holofotes.


Ela acontece em empresas tradicionais que inovam sem usar a palavra inovação, em negócios locais que se reinventam para sobreviver, em empreendedores que criam soluções sem depender de edital, prêmio ou dinheiro de fomento, em profissionais que conectam teoria e prática todos os dias.


A própria literatura sobre inovação reforça essa complexidade. O modelo da Quádrupla Hélice mostra que inovação sustentável depende da interação entre universidade, empresas, governo e sociedade civil, ou seja, não existe inovação robusta em ambiente fechado, homogêneo ou controlado por poucos.


Ecossistemas fortes são plurais, são descentralizados, são vivos, são caóticos.


E, justamente por isso, impossíveis de serem completamente mapeados ou controlados.

Quem acha que conhece tudo de um ecossistema provavelmente conhece apenas a própria bolha.


Porque o verdadeiro ecossistema é sempre maior do que qualquer relatório, evento, instituição ou narrativa. E talvez o primeiro passo para fortalecer a inovação seja justamente entender que ninguém é dono do ecossistema.


Somos todos apenas parte dele.



______________________________________


Gostou do texto? Deixe aqui sua opinião, eventuais dúvidas e divulgue para mais pessoas, vamos compartilhar conhecimento!


 
 
 

Comentários


ENTRE EM CONTATO

Todos os direitos reservados. ® CEU - Ciclo Empreendedor Universitário

Desenvolvido por MSocial | Design e Mídias

bottom of page