Quádrupla Hélice – entre o discurso e a realidade
- Ciclo Empreendedor Universitário

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Durante as últimas décadas, a Quádrupla Hélice consolidou-se como um dos modelos mais citados quando o tema é inovação, desenvolvimento territorial e políticas públicas baseadas em conhecimento. A articulação entre universidade, empresas, governo e sociedade tornou-se quase um consenso conceitual, um ideal frequentemente celebrado e raramente questionado em sua concretização prática. Editais, programas, fóruns e ambientes de inovação passaram a adotar essa linguagem como sinal de modernidade e compromisso com impactos mais amplos. Ainda assim, algo permanece deslocado.
Apesar da presença constante do modelo no discurso institucional, os resultados concretos seguem aquém do potencial prometido. A colaboração real entre esses atores continua frágil, episódica e, em muitos casos, apenas formal. A hélice aparece nos documentos, nos slides e nas falas públicas, mas raramente se traduz em processos decisórios compartilhados, fluxos equilibrados de conhecimento ou soluções efetivamente construídas em conjunto. A sensação é a de que a Quádrupla Hélice existe como narrativa, mas encontra dificuldades para se afirmar como prática cotidiana.
Esse descompasso não decorre de falhas conceituais. O modelo é consistente, amplamente discutido e suficientemente amadurecido na literatura contemporânea. O problema está em outro lugar. Ele é operacional, cultural e, sobretudo, humano. A maior parte das iniciativas que se apresentam como Quadrupla Hélice falha não por desconhecer o modelo, mas por subestimar o trabalho necessário para fazê-lo funcionar em contextos reais, atravessados por interesses distintos, linguagens incompatíveis e assimetrias profundas de poder.
Um dos equívocos mais recorrentes está em tratar os atores da Quádrupla Hélice como estruturas abstratas, quando, na realidade, eles são compostos por pessoas concretas. Universidade não é apenas a instituição formal, mas docentes pressionados por métricas acadêmicas, pesquisadores disputando recursos escassos, estudantes em busca de formação e sentido para suas vidas. Empresa não é apenas o CNPJ, mas lideranças sujeitas a riscos, prazos, regras de mercados e à necessidade constante de sobrevivência de seus empreendimentos. Governo não se resume ao órgão ou à política pública, mas envolve servidores condicionados por normas, controles, ciclos políticos e limitações administrativas. Sociedade, por sua vez, está longe de ser um bloco homogêneo; ela é feita de grupos diversos, com níveis distintos de informação, interesses por vezes conflitantes e expectativas que nem sempre encontram canais legítimos de expressão.
Quando essas diferenças são ignoradas, a colaboração se torna artificial. Os atores até se reúnem, mas não se conectam de fato. O diálogo se transforma em formalidade, e a inovação perde densidade. Em vez de um processo vivo de construção coletiva, instala-se uma coreografia institucional previsível, correta na forma, mas vazia no conteúdo. Nesse cenário, a hélice até gira, mas sem tração suficiente para produzir as mudanças necessárias.
Esse problema torna-se ainda mais evidente quando se observa o papel atribuído à sociedade civil. Em grande parte dos arranjos ditos Quadrupla Hélice, a sociedade é convidada a participar apenas quando as decisões centrais já foram tomadas. O problema já foi definido, a solução já foi desenhada e as prioridades já estão estabelecidas. Resta à sociedade validar ou aderir. Trata-se de uma participação tardia, que confunde inclusão com ratificação. Ao ser afastada do início do processo, a sociedade perde a possibilidade de influenciar a formulação das perguntas, e inovação, antes de ser resposta, depende da qualidade das perguntas que se colocam.
Há também uma crença difusa de que a colaboração entre universidade, empresa, governo e sociedade surgirá de forma espontânea, bastando reunir os “atores certos” em torno de uma mesma mesa. A experiência prática mostra o contrário. A colaboração não é automática nem natural. Ela exige mediação constante, tradução entre linguagens, alinhamento de expectativas e construção gradual de confiança. Cada hélice opera segundo lógicas próprias, com tempos, incentivos e critérios de sucesso frequentemente incompatíveis. Sem um trabalho deliberado de articulação, o encontro entre esses mundos tende a gerar ruído, frustração ou cooperação superficial. Muitas vezes, a ausência de conflitos visíveis não é sinal de maturidade, mas indício de que os temas sensíveis estão sendo evitados.
Fazer a Quádrupla Hélice acontecer é, quase sempre, um trabalho invisível. Envolve cuidar de relações, sustentar diálogos difíceis, equilibrar assimetrias e criar condições para que a participação seja real e consequente. Exige governança clara, métodos de escuta, critérios transparentes de decisão e disposição para lidar com tensões legítimas. Sem isso, a hélice permanece como arquitetura formal, incapaz de se converter em arquitetura relacional.
As experiências mais consistentes de inovação colaborativa apontam justamente para essa mudança de foco. Quando a atenção se desloca da estrutura para a relação, a Quádrupla Hélice ganha densidade. Projetos passam a refletir melhor as necessidades do território, decisões tornam-se mais informadas e os resultados deixam de ser apenas institucionais para se tornarem socialmente relevantes. A inovação deixa de ser um produto isolado e passa a ser um processo compartilhado, construído ao longo do tempo.
Talvez o maior desafio contemporâneo não seja criar novos modelos, mas levar a sério aqueles que já foram formulados. A Quádrupla Hélice não carece de novas definições ou de mais adjetivos. Ela carece de coragem operacional e de vontade política. Coragem para incluir a sociedade desde o início, para enfrentar conflitos reais entre interesses legítimos e para abandonar soluções rápidas em favor de processos consistentes. E vontade política para sustentar essas escolhas ao longo do tempo, mesmo quando elas tensionam estruturas estabelecidas, desafiam lógicas de poder consolidadas e não produzem resultados imediatos. Quando esse deslocamento ocorre, a inovação deixa de servir apenas como discurso legitimador e passa a operar como prática transformadora.
A Quádrupla Hélice nunca foi pensada para ser confortável. Ela é, por natureza, um modelo de tensão criativa. Sua força está justamente na capacidade de obrigar instituições a revisarem certezas, negociarem prioridades e renunciarem a controles excessivos. É nesse movimento que reside seu potencial de transformação. O desafio, portanto, não é mais explicar o modelo, mas fazê-lo acontecer de fato, no território, nas decisões e na vida das pessoas.
A hélice não gira sozinha. Ela precisa ser conduzida, cultivada e, em muitos casos, protegida.
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